r.izze.nhas Resenhas e aleatoriedades literárias

Segundos fora, de Martín Kohan

Dezessete segundos. Um intervalo de tempo mínimo perto das 24 horas que um dia possui. Em alguns casos pode ser tão longo quanto a eternidade. Podem ser decisivos. O intervalo de dezessete segundos entre o primeiro e o segundo lugar em uma corrida é muito. Dezessete segundos desacordado ao ser nocauteado em uma luta de boxe, pode, deve e significará a derrota. É o que aconteceu com Jack Dempsey em 14 de setembro de 1923, em Nova York, na luta para defender o título mundial de pesos pesados...

Por favor, cuide da mamãe, de Kyung-sook Shin

Uma das coisas que mais me incomodam ao falar sobre a mulher é a certeza de que o maior sonho de todas é ser mãe. Como se engravidar uma, duas, dez vezes fosse o grande ápice de sua vida – ou seria ver o filho crescer, se formar, sair de casa, etc. Não duvido que isso traga sim imensa alegria – para os homens também –, mas discordo de que toda e qualquer mulher sonha exatamente com isso. Como se ela não fosse um indivíduo, mas sim um ser obrigatoriamente composto por uma extensão chamada filhos.

Wilson, de Daniel Clowes

Aquela piadinha que a gente tanto ama/odeia do “só que ao contrário” desabou na graphic novel de Daniel Clowes em forma de sinopse – o que não deve ter sido intencional. “Wilson é um adorável malandro. Um pai e marido dedicado. Uma flor delicada.” Só que ao contrário. Wilson é mais irritante do que você pode pensar. Você está lá, quieto no seu canto tomando um capuccino delicioso e do nada um cara de óculos à lá Woody Allen senta na tua frente – sendo que todas as outras mesas estão vazias...

Cartier-Bresson: O olhar do século (Pierre Assouline)

Um dos primeiros nomes que ouvi quando comecei meu curso de Jornalismo foi o de Henri Cartier-Bresson. A excelência geométrica de suas fotos em preto e branco foi projetada na parede da sala pelo professor de fotografia, enquanto apresentava a esses projetos de jornalistas que éramos as mais famosas imagens de um dos maiores fotógrafos do século XX. Para aquele grupo de alunos pós-adolescentes, Cartier-Bresson poderia parecer apenas mais um nome “clássico” evocado pelos docentes que logo seria..

Duas novelas, de Bernardo Ajzenberg

“O número dois não está apenas no título ou na quantidade de textos que compõem o livro Duas novelas, do escritor, jornalista e tradutor Bernardo Ajzenberg. A dupla, o dois, é componente importante das duas novelas reunidas neste volume. Ou melhor, a relação entre sociedades e os dramas que elas escondem é o tema central. Não poderia ter assunto mais maçante, menos interessante, que o mundo dos negócios. Mas não são rotinas de escritórios e reuniões que Ajzenberg traz para essas novelas...

Livro, de José Luís Peixoto

“A mãe pousou o livro nas mãos do filho. [...] O rapaz tinha seis anos, fugiu-lhe a atenção, distraiu-se, mas não se desinteressou pelo livro, apenas deixou de o interrogar enquanto objeto em si, começou a questioná-lo de maneira muito mais abstrata, enquanto intenção, enquanto sombra de um ato.” Não há como falar de Livro sem apresentar o trecho inicial desse romance de José Luís Peixoto. Seria pecaminoso ignorar outra passagem que ele protagoniza: “Se namorares comigo, dou-te um pombo...

A página assombrada por fantasmas, de Antônio Xerxenesky

Quando fui ao lançamento do livro A página assombrada por fantasmas, na metade do ano passado, já estava pensando em não resenhar seus contos. Seguindo uma regra do próprio Antônio Xerxenesky publicada no blog do Michel Laub: não resenhar livro de amigos. Não que sejamos lá muito amigos, mas conhecidos sim, com certeza, e levando minha apreensão de saber que um autor leu uma resenha minha em conta, preferi ficar no silêncio mesmo quanto a qualquer crítica. Apenas ler, dizer que gostei...

Certos homens, de Ivan Angelo

O que cabe dentro de uma crônica? Além dos dois ou três mil caracteres que seu espaço dentro de uma página de jornal, ou revista, permite, o que mais podemos colocar dentro desse pequeno texto? Esse espaço pode ser preenchido com alguma experiência, um evento corriqueiro, uma crítica ou comentário sobre uma notícia, ato ou episódio, uma reflexão sobre o que há na vida. Tudo quanto pode caber dentro de uma crônica, basta um assunto. A abordagem e as palavras certas para iniciar sua escrita.

A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan

A tarefa de escrever um livro que ilustre a passagem do tempo para uma geração através do ponto de vista de diversas pessoas parece ser difícil de concretizar. Contudo, livros com esse tipo de abordagem, que buscam a pluralidade de vozes para compreender toda uma história, não são necessariamente uma novidade. Um bom exemplo disso está em Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño, que utiliza o relato de inúmeras personagens e, ao contarem suas próprias histórias, revelam os passos de seus...

Habitante irreal, de Paulo Scott

Vai ser difícil tentar definir como essa história passou da desilusão com a política e a vida estudantil para, no fim, o resgate das origens indígenas do Brasil. Habitante irreal, romance de Paulo Scott publicado pelo selo Alfaguara, parece se transformar em um livro totalmente diferente do que é em suas primeiras páginas, mesmo mantendo a sua estrutura do início ao fim, com o mesmo tom. Com uma transição sutil da história de uma personagem a outra, quase como uma metamorfose do texto...

Se eu olhar pra trás, de Ademir Furtado

Edimar é um funcionário público de Porto Alegre prestes a se aposentar. Leva aquele tipo de vida monótona, sem sobressaltos. Tranquilidade e estabilidade, para ele, sempre foram o mais importante – o que o levou a largar a carreira de professor de História. Com uma filha já casada, uma neta e sua mulher, ele mantém uma tradicional família de classe média da capital, daquelas que os vizinhos não encontrariam uma fofoca sequer para cochicharem no pátio do prédio próximo ao shopping Praia de Belas.

Diário da queda, de Michel Laub

Em que momento da vida paramos para reavaliar aquilo pelo que passamos? O que desencadeia essa autorreflexão sobre o que fizemos em vida e o que causamos a outras pessoas, como tratamos aqueles com quem convivemos? Qualquer um deve passar por um desses momentos, por algo decisivo que desencadeia a reflexão e nos leva repensar tudo o que sabemos sobre a vida rememorando sobre o passado, para, assim, criar a base de um futuro. Em Diário da queda, romance de Michel Laub lançado pela Companhia...

O livro dos seres imaginários, de Jorge Luis Borges

Quando falamos de Jorge Luis Borges, lembramos em grande parte do realismo fantástico e de suas contribuições para a literatura mundial. Um dos autores latino-americanos mais conhecidos e aclamados é nome obrigatório em qualquer lista digna de leitura – e por isso mesmo já faz tempo que quis incluí-lo na minha. Mas além da produção literária, sabemos que o escritor, falecido em 1986, era um grande estudioso da literatura e línguas anglo-saxãs – aprendeu inglês com sua avó e daí vieram...

As correções, de Jonathan Franzen

De pedra em pedra se monta um castelo e de gota em gota se forma um rio. Há vários desses ditados populares que querem dizer, basicamente, que aos poucos algo se torna grande. Grande o bastante para se tornar perceptivelmente bom ou, em muitos casos, insuportável. A rotina de Alfred e Enid Lambert é assim: nas pequenas ações de cada um, forma-se um ambiente opressor, deprimente e decadente. As pequenas torturas diárias que o casal de idosos confere um ao outro extrapolam a vida conjugal...

Crônica de um vendedor de sangue, de Yu Hua

O dinheiro conseguido com sangue é sagrado. Nos campos da China do final dos anos 1950, o homem que vendia seu sangue era visto como forte, saudável, um bom partido para as filhas dos camponeses. Isso porque possuía sangue em abundância e bom o suficiente para receber por ele. Já nas cidades, o sangue é algo tão sagrado que vendê-lo é quase como dar a própria vida. O que aqui chamamos de ato solidário, doar para aqueles que necessitam, nessa China constitui um mercado negro em que as pessoas...

Shantaram, de Gregory David Roberts

Em 1978, Gregory David Roberts foi preso por assalto à mão armada na Austrália. Ao se divorciar, o até então escritor se rendeu completamente à heroína, perdeu o contato com sua filha, sua família, e passou a roubar para alimentar seu vício. Capturado, ele foi condenado a passar 19 anos dentro de uma prisão de segurança máxima. Contudo, o horror das torturas sofridas dentro da cadeia e o desejo incontrolável pela liberdade levaram Roberts a um ato extremo: fugir. E em 1980, livre da prisão...

Peregrina de araque, de Mariana Kalil

O nome, a capa, o subtítulo: tudo indicava que Peregrina de araque: uma jornada de fé e ataque de nervos no Oriente Médio é um daqueles tipos de livros no melhor estilo YA Books, só que nacional. Lembra aquelas histórias de mulheres decididas que embarcam em alguma viagem maluca para esquecer um desapontamento afetivo ou profissional e, no melhor estilo Sessão da Tarde, aprontam altas confusões. Depois de muitas situações absurdas e engraçadas, terminam em um momento de epifania...

Enciclopédia dos quadrinhos, de Goida e André Kleinert

Uma coisa difícil de entender no mundo dos quadrinhos é como muita gente ainda os considera “coisa de criança”. Para mim, desde o começo, gibis, HQ’s, graphic novels, enfim, álbuns e tirinhas que num olhar superficial são destinados às crianças servem para qualquer idade. Se eu pegar agora um dos gibis da Turma da Mônica ou do Pato Donald que li quando pequena, vou me divertir tanto quanto naquela época. Assim como Peanuts é uma das minhas tiras favoritas desde a infância...

As melhores leituras de 2011, ou como é difícil escolher um só livro

Fui começar a pensar nas melhores leituras do ano para o post especial de toda a equipe do Meia Palavra. E toda vez que pensava em um título, eu dizia: “não, esse fulano já escolheu. Mas também tem esse bom. E esse. E esse outro. E mais esse”. Ah, impossível. Quando fui finalmente escrever a minha parte de melhor leitura, abri essa lista de livros lidos que mantenho aqui no blog e, enquanto olhava, ia clicando nos que mais me agradaram usando o seguinte critério: se viesse alguma boa lembrança..

De tudo fica um pouco (organizado por Luiz Antonio de Assis Brasil)

Antes de falar diretamente do livro De tudo fica um pouco, quero comentar duas coisas, ou fazer duas reflexões, o que quer que isso signifique. Primeiro já falando do livro de certa forma, ele é fruto de uma oficina literária ministrada por Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUC-RS. O professor é nome conhecido e acompanha muitos lançamentos de novos escritores da cena literária porto-alegrense, autores que passaram pela sua oficina de escrita criativa. Uns bons, outros nem tanto.


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